terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Hoje foi um dia ruim, triste mesmo!

Eu voltei ontem para fazer estágio. Estou em um hospital pobre e pequeno, praticamente só um pronto socorro. Na verdade é um pronto socorro que tem uma internação que deveria ser provisória, mas pela falta de vaga em outros hospitais acaba ficando com pacientes por mais tempo.
Hoje cheguei feliz! A professora já estava lá e e logo já deu a notícia: "Teve um óbito essa noite! Um bebê de 4 meses.". A pergunta veio em seguida: "Morreu do quê?", "Engasgou...". Na minha cabeça passou um filme. O Pietro foi o primeiro que pensei! Logo ela falou que iriamos lá ver o óbito. "Ver o óbito!" Eu não tenho nenhum problema em ver pessoas mortas. Respeito muito, mas não fico mal. Mas nunca vi crianças nem bebê e não é uma coisa que desejo ver. Comecei a racionalizar: a professora é apaixonada por bebês e já viu vários deles mortos, trabalhou em UTI Neo. Ela acostumou e isso não a deixa mal, por isso eu posso aguentar ver o "óbito". Comecei a perguntar: "E aí? Vamos ver o óbito?" Acho que eu não queria ser pega de surpresa, queria me acostumar com a idéia que veria um corpinho de um bebê! Isso não me agradava nem um pouco, me deixou apreenciva, tensa. Mas o movimento do PS começou a aumentar e entre medicações e pacientes esqueci por um momento do "óbito".
Peguei uma ficha que um senhor me entregou. Nadir. Também é nome de homem? Acho que sim. Voltei até a porta e chamei. Uma senhora baixinha, corcunda pela idade, cabelos grisalhos bem presos, olhos azuis acinzentados e um sorriso igual ao da minha avó atendeu pelo nome de Nadir! O senhor era o esposo dela! Andei alguns metros ao lado dela e fiquei esperando o RX. Demorou e perguntei o quê ela sentia. Estava vomitando desde ontem, muita dor no abdômem. Ea tinha um sotaque do interior, gostoso de ouvir! Depois de exames feitos eu encontrei ela deitada em um banco, esperando pelo médico...
Em meio a tudo isso, uma mulher entra de cadeiras de roda gritando. Nem meia hora depois um homem grita que vai nascer. Um parto! Na sala do ginecologista! Corremos para ver e o bebê já estava no colo do auxiliar. Ele mal sabia o que fazer pois lá não está preparado para parto. Corre para a central de materiais pois lá é quente. Mas lá não pode ficar e volta para a emergência! Prematuro. Super pequeno. Sem equipamentos para bebês pequenos eles improvisam. O pediatra estava um amor com o bebê! De repente outro grito no corredor: "SÃO DOIS!" Era o GO que esperava a saída da placenta e saiu outro bebê!!!! Menor que o anterior. Cianótico (azul). Molinho. Aspiram, colocam oxigênio e aquecem. Voltou a ficar rosinha, mas era muito pequeno! Até era espantoso ver aquele bebezinho ali em cima da maca! Voltei aos pacientes da medicação. Estava feliz pq tinha esquecido do "óbito" e a dona Nadir estava lá para tomar outra medicação. Estava feliz pq tinham nascidos gêmeos de parto normal e eu tinha visto dois bebezinhos! Mas durou pouco... Fiquei sabendo depois que o bebê menor estava mal. Teve parada e estavam tentando fazer alguma coisa! Depois soube que ele virou outro "óbito".
A mãe, que não sabia que esperava gêmeos chorou lágrimas tímidas quando o marido deu a noticia! Ela esperava por um bebê, por cerca de uma hora foi mãe de dois bebês e de repente só tinha um novamente!
Fiquei mal. Minha cabeça começou a doer e coisas que pareciam normais (como o óbito que não fomos ver e a dona Nadir) começaram a me incomodar. De tarde eu pensava na dona Nadir e no marido dela com pequenos olhos azuis olhando para a esposa que estava se sentindo mal. Comecei a pensar o que passava na cabeça dele! Sua companheira de tantos anos se sentindo mal. Será que ela voltou de tarde para pegar o resultado dos exames? Estava chovendo, será que ela foi? Será que estava melhor? Comecei a pensar na mãe do bebê de 4 meses que engasgou. Que dor ela estava sentindo? Quem estava com ela? Como ela seria? Me lembrei da mãe dos gêmeos que me disse "Agora tenho três (filhos)" com um sorriso feliz minutos antes de saber que seu bebê surpresa não estava mais aqui! Meu Deus! Hoje meu dia não foi bom! Me senti impotente e pequena diante de tudo isso! Normalmente sinto que fiz bem para alguém, mas hoje não senti nada! Hoje me senti só uma peça que não encaixou em nada.

Nada melhor que um dia após o outro! Dias melhores virão!


Um comentário:

Anasor Orisho disse...

ai Lala, eu não sei se saberia lidar com a vida e a morte assim nao sabe?
eu pretendo ser parteira um dia e vou ter que me entender com essas coisas...

mas não carregue nda disso com voce pois não te pertence.

leve alegria e consolo a quem precisa, mas não carregue um fardo que não é seu!

beijo