domingo, 23 de janeiro de 2011

Parto no livro!

****ATENÇÃO: CONTÉM TRECHOS DO LIVRO A PASSAGEM****

Terminei de ler hoje um livro! Eu amo ler e leio muito! Eu gosto de qualquer tipo de história desde que o escritor escreva bem e consiga me prender. Menos livros de autoajuda... Pode ser vampiros apaixonantes, bruxos adolescentes, professores de simbologia ou monstros espaciais, se o escritor for bom, eu leio!
Acabei de ler A Passagem, de Justin Cronin, e confesso que fiquei arrazada quando terminou, pois é uma trilogia e quero saber o que vai acontecer. Acho que a continuação ainda não saiu...
Esse livro é bem ficção: experiências do exército com cobaias humanas infectadas com um virús transforma essas cobaias - presos que estão no corredor da morte - em criaturas assassinas que praticamente acabam com a humanidade. Quase um século depois a população restante tenta encontrar a origem de tudo isso para tentar por um fim nas criaturas e recomeçar a sociedade! Adorei o jeito que ele escreve e li o livro de 815 páginas em 22 dias! Um dos personagens do livro é uma moça grávida. Ela está atravessando os EUA junto com um pessoal e pára em uma fazenda junto com o pai do bebê. Lá ela ai ter o filho sozinha com o marido! Justin Cronin escreve sobre o parto com uma emoção fantástica! Vou transcrever aqui quando a personagem (Mausami) sente o bebê mexer pela primeira vez:

"Mausami estava no escuro, sonhando com pássaros. Acordou com uma palpitação intensa e rápida sob o coração, como um par de asas batendo dentro dela.
O bebê, pensou. O bebê está se mexendo.
A sensação veio de novo - uma nítida pressão aquática, rítmica, como círculo se alargando na superfície de um lago. Como se alguém estivesse batendo em uma janela de vidro dentro dela. Ei, você aí fora! Olá!
Suas mãos traçaram a curva da barriga embaixo da blusa, umida de suor, e ela foi inundada por um sentimento de ternura. Ei, você aí dentro! Olá!"

Achei fantástico! Mas mais do que ela sentindo o bebê mexendo foi o parto! Foram 5 páginas de um parto intenso e lindo! Bom, eu chorei quando terminou! Foi um parto longo, dolorido, com direito a cordão enrolado no pescoço e uma emoção que nunca senti em ficção nenhuma! Vou deixar uns trechos aqui! O ponto de vista é do pai que está ajudando:

"Era primavra e o bebê estava chegando. (...)
Ela havia lhe dito o que fazer, as coisas que precisaria. Lençóis e toalhas para colocar embaixo dela, para o sangue e todo o resto. Uma faca e linha de pesca para o cordão umbilical. Água para limpar o neném e um cobertor para enrolá-lo. (...)
Ela ficou de quatro. Estava usando apenas uma camiseta. Os lençóis estavam encharcados de líquidos, soltando um cheiro quente, doce, como feno recém-cortado. Ele se lembrou do sonho, no campo das ondas douradas de luz do sol.
Outra contração. Mausami gemeu e encostou o rosto no colchão.
- Não fique aí parado!
Theo subiu na cama ao lado dela, posicionando o punho em sua coluna e empurrando com toda a força.
Hora e horas. As contrações continuaram, mais longas e intensas, durante todo o dia. Theo ficou com ela na cama, apertando sua coluna até ficar com as mãos entorpecidas, os braços parecendo de borracha, de tanta fadiga. Mas, comparado ao que estava acontecendo com Mausami, seu pequeno desconforto não era nada. (...)
Imaginou se era assim sempre. Não sabia. Era horrível, interminável, diferente de tudo pelo que já passara. Imaginou se Mausami teria forças para empurrar o bebê quando chegasse a hora. Entre as contrações, ela parecia flutuar em uma espécie de sono. Theo sabia que ela estava focalizando a mente, se preparando para a próxima onda de dor que ela iria atravessar. Tudo o que podia fazer era apertar suas costas, mas isso não parecia ajudar muito. Na verdade, não parecia ajudar em nada. (...)
- Segure. Minhas pernas - disse ela, a voz entrecortada.
- Segurar como?
- Eu vou. Empurrar. Theo.
Ele se posicionou ao pé da cama e pôs as mãos contra os joelhos dela. Quando veio a contração seguinte, ela dobrou a cintura, impulsionando o peso contra ele.
- Ah, meu Deus. Estou vendo.
Ela havia se aberto como uma flor, revelando um disco de pele rosada, molhado e coberto de cabelo preto. Mas no instante seguinte a visão sumiu, as pétalas da flor se fechando novamente, puxando o bebê de volta para dentro.
Ela empurrou com força três, quatro, cinco vezes. Cada vez que empurrava, o bebê surgia, desaparecendo de modo igualmente rápido. Pela primeira vez ele pensou: esse bebê não quer nascer. Ele quer ficar onde está.
- Me ajude, Theo - implorou ela. Toda a força a havia abandonado. - Puxe-o para fora, por favor, apenas puxe-o.
- Você precisa empurrar mais uma vez, Maus.
Ela parecia completamente impotente, à beira de um colápso.
- Está me ouvindo? Você precisa empurrar!
- Não consigo! Não consigo!
Outra contração veio. Ela levantou a cabeça e soltou um grito animal de dor.
- Empurre, Maus, empurre!
Ela empurrou. Enquanto os cabelos do bebê apareciam, Theo se abaixou e enfiou o indicador dentro dela, em seu interior quente e úmido. Sentiu a curvatura de um globo ocular, o volume delicado de um nariz. Não conseguia puxar o bebê, não havia em que segurar, o bebê teria que vir até ele. Recuou e posicionou a mão embaixo dela, encostando o ombro nas pernas de Maus para lhe dar apoio.
- Estamos quase lá! Não pare!
Então, como se o toque de sua mão tivesse despertado nele a vontade de nascer, o rosto do bebê apareceu, escorregando para fora dela. Uma visão de estranheza magnífica, com orelhas, um nariz, uma boca, e olhos inchados como os de um sapo. Theo pôs a mão em concha sob a curva lisa e molhada do crânio do neném. O cordão, um tubo translúcido cheio de sangue, estava enrolado no pescoço dele. Ainda que nunca houvessem dito a ele o que fazer, Theo enfiou um dedo por baixo do cordão, levantando-o gentilmente. Depois colocou a mão dentro de Mausami, posicionou os dedos sob um dos braços do neném e puxou.
O bebê girou e se libertou enchendo as mãos de Theo com o seu corpo quente e escorregadio de pele azulada. Um menino. O bebê era um menino. Ainda não tinha respirado nem feito som algum. Sua chegada ao mundo estava incompleta. Porém Maus havia explicado bem a parte seguinte.
Theo rolou o bebê nas mãos, virando-o para baixo, deitando o corpinho leve em seu antebraço, sua mão sustentando o rosto da criança. Usando os dedos da mão livre, começou a esfregar as costas do filho com um movimento circular. Seu coração martelava no peito, mas ele não sentiu pânico: estava atento, todo o seu ser voltado para essa tarefa. Vamos, dizia Theo. Vamos, respire. Depois de tudo pelo que você passou, isso não pode ser tão difícil. O bebê havia acabado de nascer, mas Theo já se sentia dominado pelo modo como, simplesmente por existir, esse ser pequenino e cinzento em seus braços apagava todos os outros tipos de vida que Theo poderia levar. Vamos, neném. Abra os pulmões e respire.
E então ele respirou. Theo viu o peito minúsculo inflar, com um estalo discernível, e então algo quente e pegajoso em sua mão, como um espirro. O bebê respirou uma segunda vez, enchendo os pulmões, e Theo sentiu a força da vida penetrar na criança. Virou-o, estendendo a mão apra pegar um pedaço de pano. O bebê tinha começado a chorar, não os gritos robustos que ele havia esperado, mas uma espécie de miado. Enxugou o nariz, os lábios e as bochechas do neném. Então o colocou, ainda ligado ao cordão, no colo de Mausami.
O rosto dela estava exausto; as pálpebras pesadas. Nos cantos dos olhos dela ele viu um leque de rugas que não estavam aliapenas um dia antes. Ela conseguiu agradecer com um sorriso fraco. Estava terminado. O bebê havia nascido, o bebê estava finalmente ali.
Ele pôs um cobertor sobre o neném, sobre os dois, sentou-se ao lado deles na cama, e então soltou o choro do peito."

Achei lindo e mais do que isso, a naturalidade com que ele narra o parto foi emocionante! Nada de parto de novela nem de filme!

2 comentários:

Elo e disse...

Larissa, QUE COISA MAIS LINDAAAAA! Fiquei emocionada, tocada....ou o autor já passou por essa experiência, ou alguém mto próximo lhe contou, pq é incrível! Estou aqui emocionada, obrigada por compartilhar conosco!!

Um beijão nessa linda família
Eloise, mãe da Betina.

Layana Lossë disse...

nossa, arrepiante!
deu vontade de ler o livro todo!